Transformo sentimentos em palavras.
O desafio é encontrar a beleza em tudo.

Ás vezes me pergunto porque as pessoas em minha volta são tão diferentes de mim. Se eu atraio esse tipo de gente. Se eu sou diferente ou se são eles. Ás vezes me sinto isolada do mundo quando quase morro de tédio e indignação durante as conversas ocas deles. Ás vezes penso que aquelas pessoas interessantes que vejo na internet, em filmes e livros não existam de verdade. Talvez eles sejam produtos da minha grande imaginaçao.

Mas então eu me lembro. Eu sou suficiente. Eu não preciso estar em companhia de pessoas vazias. Eu não sou obrigada a agradar ninguém. E um dia, quando eu menos esperar, eu vou encontrar gente que não me mata de tédio.

4.

Mesmo com todo cuidado do mundo você perderia dela

A vida é o melhor ladrão do mundo.

Ela é tão boa que nem precisa agir somente à noite. Ela vem quando ela quiser e quando ela decide aparecer ninguém está preparado. Nem se tentássemos, nunca escutaríamos seus passos se aproximando, a sua respiração desenhando nuvens no ar frio.

Ela disfarça tão bem que as vezes nem percebemos que a culpa não era nossa, era dela. Nos seus dias livres ela assiste ao nosso espetáculo que ela criou e ri baixinho pelos lados, elogiando-se pela sua própria genialidade.

Ela não é do tipo que perde o seu tempo explicando suas ações. Ela não deve nada a ninguém, muito menos a nós. Dizem que ela não é justa, mas na sua própria glória, ela se acha muito mais do que isso: afinal, ela é a dona da justiça. Há talvez algo de verdade nisso, pois ela não tem favoritos. Todos são iguais nos seus olhos impiedosos e no seu jogo de xadrez cada um terá seu lance.

Por ela, nunca, jamais algo passará despercebido e nada pode ser desfeito. Com os anos, dizem as pessoas, vem o talento de perdoar, mas ela não quer nem saber de idade. Para ela a juventude não é algo que passa, mas isso, óbvio, só vale para o seu próprio caso.

Ela não admite desculpas e do jeito que algo ocorreu ela anotará no seu caderno de memórias, para um dia repassar aos responsáveis. Ela é o melhor ladrão do mundo, mas ela tem um chefe. Não adianta perguntar, ela nunca deixaria uma única palavra escapar sobre os seus superiores. Mas também, nunca foi muito conversadora. Ela trabalha em silêncio, é solitária, com certa agilidade e elegância. Sim, ela tem estilo. E apesar de tudo ela é muito feliz.

Se você não for esperto, se não tomar cuidado, a vida rouba tudo de você. Sem nem piscar com os olhos. Ela não é gentil e com certeza não é amigável com ninguém. Mas no fundo, ela é compreensível e ela reconhece onde energia foi gasta e onde não economizaram no esforço. E para esses casos ela poderá até virar uma aliada.

E no final, o seu trabalho é algo que ela faz a pedido de alguém que certamente está ao nosso lado enquanto estaremos ao lado dele. No final o que importa é se derramaremos lágrimas sobre os casos perdidos que ela, a vida, levou, ou se sacudimos a poeira da roupa e continuamos seguindo o nosso rumo, até a próxima vez que ela, a vida, decidir se intrometer.

Quando dizem que a história sempre se repete, eles estão certos. Mas desta vez eu sou mais sábia. Desta vez eu sou mulher.

Não sou mais a garota que pensava que o mundo me deve algo. Não acredito mais em fazer amigos para não ficar só. Não finjo mais ser especial, diferente. Agora eu já sei que sou. Eu sou. Essas palavras parecem carregar uma força, parecem preencher o quarto inteiro quando eu as pronuncio.

Eu sou a mulher que sabe que eu devo algo ao mundo. Eu devo a ele mais felicidade. Mais coragem. Mais gratidão. Porque o que for que aconteça, o mundo sempre amanhece. Ele sempre continua. Não importa o que fizemos de errado e de feio, ele sempre continua o mesmo. Não nos culpa, não nos joga fora dele. O mundo é o nosso amigo e a tragédia da vida é que quase só nos damos conta disso quando é tarde demais. 

Mas eu sei agora que se o mundo for o meu amigo, eu nunca ficarei só. Nem quando a única coisa que escuto for o meu próprio coração, eu não estou só. E se os amigos não forem o que eu imaginava, o mundo é tão generoso que ele promete que existem milhares de outros amigos por aí, só nos esperando. 

Hoje eu repito história. Eu vou seguir a estrada, em busca de um lugar melhor, onde eu e o mundo podemos nos reencontrar. Hoje eu sei que eu não preciso fingir. Eu sou. Eu sou. Não há nada mais real do que isso.

3.

Baile de máscaras

O pulmão cheio de ar, mas sem espaço para respirar.

O mundo um carrossel de crueldades gentís,

palavras cochichadas misturam-se

com os nomes na canção do vento

até que você não sabe mais distinguir o que é real

e o que é imaginação.

As máscaras sempre caem em algum momento

e no fundo tememos essa hora.

Gritos de verdade soam nos seus ouvidos,

mas continuam mudos entre as quatro paredes.

Enquanto as estrelas continuam brilhando

e a lua observa tudo com a sabedoria do mistério,

continuamos os nossos passos cautelosos na beira da estrada.

Os laços de ontem tornam-se armas perigosas,

te abraçando com aquele jeito ameaçador que só o passado guarda.

Os sonhos transformam-se em aliados inquietos,

sempre um passo além do hoje,

enquanto a chuva bate na janela e o ar quente

embaça toda a vista.

Letras surgem das sombras imensas

que engolem o asfalto quente do dia,

mas você não entende suas linguagens.

Os fantasmas riem baixinho nos espelhos,

enquanto os reflexos dançam dentro da moldura.

As últimas gotas do licor já se perderam

nos lábios que guardam segredos como deveriam guardar

suas aprendizagens.

E tudo se transforma numa dança infinita, num ritmo tão belo

que já é assustador;

os passos tão caóticos como a fuga dos inimigos,

os olhares tão profundos como o silêncio da noite,

as piruetas tão perigosas como um passeio nas trilhas daquele trem

que vem se aproximando

e tudo é tão exaltante,

intrigante,

deslumbrante,

que se você não soubesse melhor,

morreria daquela doença que chamamos de inveja.

2.

O que sabemos, é que não sabemos nada

E se Deus fosse uma criança, cheia de gargalhadas e com olhos inocentes

Brincando com os arco-íris, as ondas do mar, os flocos de neve.

E se a vida fosse uma pergunta, para qual não existe resposta certa

Ou errada, cujos pontos de interrogações fossem de uma perfeição divina, nos desafiando a duvidar de tudo.

De nós.

E se o amanhã não existisse, sendo uma ilusão irrealista, uma fata morgana no deserto, uma desculpa para resistir à força do agora?

E se você não fosse nada além de um pontinho no universo, tão frágil como uma pena nos braços do vento, tão vulnerável quanto uma gota d’água em pedras quentes?

E se isso tudo não fosse real, como as fadas e os dragões e as bruxas e os monstros, invenções de cabeças brilhantes, cabeças de crianças eternas.

E se Deus fosse uma criança, te convidando a dançar na chuva, a esquecer as dúvidas do amanhã, a esquecer a importância da sua existência, a esquecer os monstros debaixo da cama, a esquecer tudo para dançar?

1.

As vezes ela sentia uma vontade de correr.

E ela se perguntava se isso só acontecia com ela, ou se todo mundo se sente assim, às vezes. Como se estivesse no lugar errado, como se uma vontade insânia dentro de si a puxasse para outro caminho. Será que todos em sua volta queriam correr?

No final, nunca corria. Nunca desaparecia, com uma mala pequena, esperando um ônibus sem destino. No final, a parte sã que havia no seu cérebro – era pequena, mas existia – sempre vencia. E o desejo de correr? Nunca morria.